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GALERIA DOS GOESES ILUSTRES

INTROSPECÇÃO SOBRE A ORIGEM, O ALCANCE E OS LIMITES DA IDENTIDADE GOESA, E O SEU CONTRIBUTO HISTÓRICO E SOCIAL EM PORTUGAL E NO MUNDO

GALERIA DOS GOESES ILUSTRES

INTROSPECÇÃO SOBRE A ORIGEM, O ALCANCE E OS LIMITES DA IDENTIDADE GOESA, E O SEU CONTRIBUTO HISTÓRICO E SOCIAL EM PORTUGAL E NO MUNDO

658 INDIANO...OU GOÊS?

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"O Doutor António Costa é português, indiano ou goês?"  

 

por Professor Doutor Valentino Manuel Francisco Xavier Viegas

 

"Apre! Será que me esqueci de monhé[1] ? Quem tiver a curiosidade de procurar o exemplar de um espécimen de monhé no Google constatará que encontra, com grande destaque, várias fotos de António Costa, Primeiro-ministro de Portugal. Sendo vocábulo de origem e definição controversa, é utilizado essencialmente de forma depreciativa, em especial pelos chamados jornalistas e nas redes sociais, com intenção primordial de menosprezar António Costa e determinadas pessoas nascidas em Moçambique e em certos países do Oriente e Médio Oriente. 

 

Aos amantes deste tipo de informações, no que concerne especificamente aos indianos, dou a conhecer também a recomendação que já ouvi ser feita sobre eles, às vezes aos cochichos, mais ou menos nestes termos: se te encontrares numa situação de iminente perigo de vida e tiveres de escolher entre matar uma cobra-capelo ou um indiano opta pelo segundo. Que eu saiba, esta exortação metafórica é de origem goesa. Era veiculada por muitos naturais, com o intuito de afirmar e vincar bem a sua identidade em relação aos restantes habitantes da União Indiana, quando Goa era portuguesa.

 

Como a ignorância é a mãe do atrevimento, fui pesquisar e averiguei que, face aos conhecimentos históricos adquiridos até ao presente, a comunidade científica aceita, de forma pacífica, que o berço da humanidade teve a sua origem em África. E como em sucessivas ondas migratórias os africanos colonizaram a Eurásia e depois a América e o resto do mundo, decorre que todos os humanos existentes na face da terra são descendentes de africanos. 

 

Milénios após milénios, os sucessores destes corajosos emigrantes tiveram que se adaptar, somática e intelectualmente, à diversidade da natureza circundante e preservar os recursos existentes nos locais ermados por onde se foram fixando. Delimitaram fronteiras e criaram, ao longo dos tempos, territórios autónomos, e posteriormente nações e estados, ciosamente guardados e tantas vezes defendidos e alargados através do uso da força. 

 

Com a descoberta do caminho marítimo para a Índia por Vasco da Gama e a expansão europeia pelo mundo, a globalização deu os primeiros passos e abriu as portas do universo para a sua intensificação. Em concomitância, os notáveis avanços tecnológicos e científicos realizados, aplicados ao estudo da História, permitiram aos especialistas assinalar, com letras de ouro, os itinerários percorridos pelos primitivos migrantes, desde a fase inicial do salto migratório no escuro até ao presente. Se enquadrarmos o título do artigo na linha evolutiva da existência humana aqui sumariada, torna-se óbvia a origem de António Costa e de todos quantos habitam a face da terra, independentemente da actual cor da pele, dos cabelos ou dos olhos, mas a questão colocada tem outra razão de ser e não é de somenos, porque as pessoas pensam e agem em função das circunstâncias e da história de vida. 

 

A propósito dos humanos exteriorizarem os pensamentos, um amigo meu lamentava o facto de desconhecer se alguma vez António Costa tinha afirmado que era goês, mas dizia, com indisfarçada mágoa, ter constatado que declarara ser de origem indiana.

 

Na sequência da longa marcha de ocupação das terras, afirmação do poder e a criação de soberanias pelos descendentes dos migrantes no globo terrestre, no início do século vinte havia somente cinquenta e sete nações. Hoje temos cento e cinquenta e três para além daqueles territórios que, por diversas razões, não figuram nesta lista.Deste diversificado e complexo conjunto de nações faz parte Portugal, como uma das mais antigas do mundo, e a jovem Índia. Goa é apenas um pequeno Estado de entre os numerosos Estados e Territórios da União da Índia. 

 

Se António Costa fosse o comum dos cidadãos, ninguém se importaria com os seus depoimentos, mas como é Primeiro-ministro de Portugal, na recente visita à Índia, Narendra Modi, seu homólogo indiano, deu-lhe as honras de chefe de Estado e salientou o facto de ser a primeira pessoa de origem indiana a ocupar aquele cargo num país europeu, desvalorizando e não dando qualquer importância ao facto de a percentagem genética indiana do seu convidado ser reduzida. 

 

Durante aquela visita, a televisão portuguesa transmitiu várias imagens de António Costa, uma delas no bairro de Fontainhas da cidade de Pangim, capital do Estado de Goa, onde muitas pessoas afluíram para o cumprimentar e receber em festa. Uma delas apresentou-se e disse de forma espontânea: eu sou goês. Embora custe a muitos goeses, é bom que compreendam e aceitem que António Costa, para ser igual a si próprio, nunca poderia afirmar que era goês, sob pena de negar a sua identidade. 

 

É certo que o avô é goês e a avó francesa, e o pai, Orlando Costa, tendo nascido em Lourenço Marques, desfrutou a infância e a juventude em Goa, mas passou a maior parte da existência em Portugal. Casou com a jornalista lusitana Maria Antónia Palla, em cujo ventre medrou António Costa. Se os sentimentos germinam e desenvolvem nos nossos íntimos e não se compram nem estão à venda, e tendo o babush ido uma única vez a Goa, há vinte e dois anos, acham que poderá sentir-se goês? Portugal é o berço do seu nascimento. Deu os primeiros passos e cresceu neste país que o pai escolheu para viver. As referências que o acompanham e as marcas identitárias estão na terra do autor dos Lusíadas. 

 

Goa pode e deve envaidecer-se porque o avô do atual Primeiro-ministro português é goês. Depois desta sua segunda visita a Goa, que o recebeu de braços abertos como filho de sua terra, nós, os goeses que vivemos em Portugal, sabemos que António Costa vai sentir-se ainda mais orgulhoso da goanidade que traz no seu âmago. 

 

Lisboa, 

8 de Fevereiro de 2017.Valentino Viegas ============================================ 

 [1] Os dicionários são pródigos em definições: Pessoa de ascendência asiática, nomeadamente de Índia, Paquistão, Bangladeche, SriLanca; muçulmano que segue a religião muçulmana; muçulmano asiático; comerciante árabe ou asiático; mestiço de árabe e negro; comerciante de ascendência árabe, indiana ou paquistanesa; pessoa de origem indiana, árabe ou paquistanesa; forma depreciativa, proveniente do dialecto falado em Moçambique, utilizada erradamente, de tratamento aos indianos. A grande enciclopédia Portuguesa e Brasileira diz ser provável que este nome venha do macua M’monhé, islamita.

 

 

657 GOESES, PERCURSORES DAS GRANDES EXPEDIÇÕES AFRICANAS

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Gonçalo Caetano Pereira, o «Dombo-Dombo»

 

"Na segunda metade do século XVIII, talvez por 1760, um tal Gonçalo Caetano Pereira, de origem goesa, estabeleceu-se nas margens do Revubwé, a norte de Tete.

 

Consolidando-se no poder a expensas do Estado Undi e doutros senhores maraves,

Caetano Pereira entabulou relações comerciais com o estado da Lunda oriental

recentemente criado pelo Muata Cazembe, filho do Muatiânvua, soberano da Lunda,

ao qual permaneceu teoricamente sujeito. 

 

Obrigado a comerciar para ocidente em

circunstâncias bastante desfavoráveis devido às longas distâncias, ao elevado número

de intermediários e à dependência em que ficava relativamente aos sistemas monopolistas praticados pela Lunda ocidental e pelo Cassange, o Muata Cazembe estava impedido de o fazer directamente. Por este motivo procurou incrementar as relações comerciais com a costa oriental.[...]

 

Na verdade, não se sabe ao certo quem assegurou as ligações entre o Cazembe e a costa na fase inicial. A expedição de Lacerda e Almeida, em 1798, não obteve notícia da presença de mercadores muçulmanos na capital do Cazembe. Se essas relações com os Suaíli sujeitos ao sultão de Oman foram de facto estabelecidas ainda no século XVIII — algumas vagas notícias parecem apontar nesse sentido — não satisfizeram o Muata Cazembe que tudo fazia para, segundo a

tradição lunda, monopolizar as trocas entre os seus domínios e o exterior. 

 

A tentativade diversificar as fontes de produtos importados levou-o a entrar em contacto com Caetano Pereira, durante a década de 1780, e a enviar caravanas a Tete no desejode se tornar parceiro comercial dos portugueses. As caravanas, conduzidas por elementos da aristocracia lunda, conquistadores das terras a sueste do Luapula, integravam largo número de mercadores bisa e carregadores desta e doutras nações.

 

A viagem do explorador brasileiro Dr. Lacerda e Almeida, de Tete ao Cazembe, onde morreu, foi, pois, precedida por contactos comerciais e troca de embaixadas.

 

Gonçalo Caetano Pereira foi o primeiro português a deslocar-se ao Cazembe, em

1793. Pouco depois a viagem foi repetida por seu filho Manuel Caetano. 

 

Também a grande "dona" zambeziana, Francisca Josefa de Moura e Meneses, despediu mussambazes em visita de cortesia ao Cazembe, depois de ter recebido um chefe bisana qualidade de embaixador daquele rei. O próprio Lacerda recebeu uma segunda

embaixada enviada pelo monarca lunda a Tete na companhia de uma caravana bisa,

facto que foi decisivo para abandonar o projecto inicial de ligação por terra a Angola

seguindo o curso do Zambeze a partir do Zumbo."

 

em "Redes mercantis e expansão territorial.

A penetração portuguesa no vale

do Zambeze e na África central

durante o século XIX (1798-1890)", de A. Manuel Lobato

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