011 MARIANO JOAQUIM JOÃO ROQUE DA PIEDADE GRACIAS (1871) , de Francisco Monteiro



Mariano Gracias nasceu em 29 de Fevereiro de 1871 no bairro de Bordá da cidade de Margão, concelho de Salcete, distrito de Goa, antigo Estado da Índia, e era filho de José Joaquim Gracias, médico militar e de D. Dulcinda Gomes e Gracias; em Goa fez os seus estudos secundários e formou-se em Direito em Coimbra.
Formação em Portugal
Na cidade universitária de Coimbra a sua vida é cheia de agitação; a sua formação intelectual deve-se em parte às discussões que tinha com os seus companheiros. As suas primeiras letras mostram uma cultura bastante rudimentar, mas depois o seu entusiasmo cresce pela leitura seleccionada dos melhores poetas e prosadores, tanto nacionais como estrangeiros.
Mariano Gracias gosta de solucionar problemas complexos e procura interpretar a vida segundo a filosofia oriental. Mais tarde matricula-se no Instituto Comercial e Industrial do Porto pelo qual é diplomado.
Publica sucessivamente “No Alto Mar” (1894), o seu primeiro livro em verso “Poentes” (1895), “Regresso ao Lar” (1896), “Agonia”, (1898), “Canção de Alguém que se Perdeu” (1898), o poema lírico “Missal de um Crente” também em 1898 e entre 1898-1901 “Saudades de Portugal; tinha uma forte propensão para a poesia repentista.
Em 1903 segue a carreira burocrática, sendo revisor de 1ª classe da Imprensa Nacional de Lisboa; depois passa a exercer as funções de revisor-redactor do Diário de Governo ocupando a vaga deixada pelo falecimento do Visconde de Bucelas.
Em 1906 vai para Moçambique para ocupar o lugar de Secretário de Relação, para três anos depois ir para Goa ocupar idêntico lugar, onde serve com grande dedicação os seus conterrâneos.
Em 1914 aceita o convite do Ministro das Colónias Ernesto Vilhena para fazer parte do seu Gabinete, colaborando ao mesmo tempo nos jornais e revistas. Continuando a sua vasta obra literária em 1925 publica a “Terra dos Rajás”.
É um homem que rejeita todas as honrarias como atesta a sua recusa terminante do cargo de vogal da Junta Geral da Província para o qual tinha sido escolhido pela comissão municipal.
Homem das letras, poeta...
A sua última obra foi “O Meio Colonial” um livro que apresenta estudos sociológicos. Contribuiu largamente para a cultura goesa, deixando vasta obra literária; o seu nome fica gravado nas letras indo-portuguesas; o eminente homem das letras Fialho de Almeida referindo-se à poesia “Regresso ao Lar escrito em 1906” disse-lhe numa carta que as estrofes eram lindas, o veio poético fácil, a emoção profunda e comunicativa, a forma a mais cantante e vaporosa.
No seu livro “Terra de Rajás”, que ele próprio disse ser o seu livro mais querido, encontram-se poesias dedicadas a Albano Forjaz de Sampaio, Rocha Martins, Gomes Leal, Cândido de Figueiredo, Eduardo Schwalbach e a outros seus conterrâneos. Tanto nesse livro como no “Sundorém” podem-se avaliar perfeitamente os seus elevados méritos como poeta.
Na grande lista das suas publicações encontramos: “Regresso ao Lar” (1906), mereceu um sugestivo elogio de Fialho de Almeida, “Terra de Rajahs”, “O ABC da Nenita” (ilustrado) (1913), “A Bíblia do Amor” (1913), “Terra de Rajás” (1925) publicado em Bombaim, “Oração ao Suryá” (1925)... O Regresso ao Lar é publicado em 2ª edição em Nova Goa e cuja receita se destinou à Caixa de Socorros do jornal “Heraldo”. O “Crepúsculo da Saudade” publicado em Lisboa em 1922 é uma colectânea de versos muito lindos que estavam dispersos uns pelos jornais e revistas e outros esquecidos nos fundos das gavetas; poesias como a “Moira Encantada”, “A Merenda”, “O Cortejo Real”, “Os Noivinhos”, “Os Fakir”, “Toada Goanense” e “As Três Lendas”, em versos deliciosos, escritos numa linguagem verdadeiramente indo-portuguesa. Faleceu no dia 10 de Novembro de 1931 quando apenas tinha 40 anos de idade.
A Câmara Municipal de Coimbra homenageou este nosso ilustre poeta com duas das suas quadras das Recordações de Coimbra que estão gravadas no Penedo da Saudade, no Choupal.
A melhor maneira de homenagear este grande vulto da nossa história é divulgando a sua vasta obra literária, por isso apresentamos trechos dos poemas “Oração ao Suryá”, “Goa”, “Missal de um Crente” e o soneto “A Mocidade”.
ORAÇÃO AO SURYÁ
Suryá! Ó minha alegria e meu velho braseiro,
O teu ardente beijo é que me fez trigueiro;
Da tua luz, do teu calor, da tua graça
É feito o meu país, é feita a minha raça,
E a minha amada, e a minha irmã e minha mãe
Foram feitas por ti trigueirinhas também.
Ó clangoroso Sol, rubro pai das auroras,
Fanfarrante clangor de mil tubas sonoras!
Donde dimana o sêr.. Toda a fecundação
De ti depende, em ti emerge, em ti palpita,
És o centro vital donde pende e gravita
A vida universal!…Meu bom Sol do Oriente,
Bendito sejas tu, bendito eternamente!…
GOA
Dezembro – Manhã linda e gloriosa!
Sob a benção do sol, a Natureza
Comovida e ridente canta e reza,
A velha prece ardente e misteriosa!…
Passam terrais em onda misteriosa,
Espalhando perfumes!… Há beleza,
Frescura, encanto em toda a redondeza,
A grande paz sagrada e religiosa!…
Toda perfume, é um encanto a Goa!
Florida de mil lotus a lagôa
É uma linda noiva engrinaldada!
Terra de rajás, moiras encantadas,
Diamantes, rubis, pérolas, esmeraldas!…
Eis a ditosa pátria minha amada!
MISSAL DE UM CRENTE
Na Hóstia da Crença lá do Céu trouxeste
A Doce Comunhão do teu Amor!…
E nos teus lábios a beijar me deste
O Trigo Santo… abençoado mel !…
Recebe em troca - que te adoro tanto!
A calix da Paixão…da minha Dor,
Dor tão sentida que destila Pranto,
Taça expumante de amargoso Fel !
Soneto “A MOCIDADE”
Queimei a mocidade á luz de um luar brando,
Eu que tinha no peito um sol ardente e louro,
Lindas noites de amor que atravessei cismando,
Olhos fitos no céu, contando estrelas de ouro!...
Boémio e sonhador, andei sempre cantando,
De guitarra na mão, meu único tesouro,
E foram a gemer, uma a uma, estalando,
As cordas da guitarra, em ais, de negro agoiro!...
E foi-se a minha capa alegre de estudante
Nos espinhos do amor, nesse caminho andando
Rasgando, a flutuar aos ventos inconstante!...
É drama da paixão a rubra mocidade,
No qual o coração suspira vitimado,
Mas, suplício, depois é gozo na saudade!...