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GALERIA DOS GOESES ILUSTRES

INTROSPECÇÃO SOBRE A ORIGEM, O ALCANCE E OS LIMITES DA IDENTIDADE GOESA, E O SEU CONTRIBUTO HISTÓRICO E SOCIAL EM PORTUGAL E NO MUNDO

GALERIA DOS GOESES ILUSTRES

INTROSPECÇÃO SOBRE A ORIGEM, O ALCANCE E OS LIMITES DA IDENTIDADE GOESA, E O SEU CONTRIBUTO HISTÓRICO E SOCIAL EM PORTUGAL E NO MUNDO

634 RANGOON, BIRMÂNIA, 1961

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Esta cidade foi o lar de uma proeminente comunidade Goesa ainda durante o Raj Britânico. Do seu legado material e imaterial permanecem vários edifícios emblemáticos entre os quais a Farmácia De Souza, pertença de E M.de Souza, ao tempo um dos maiores empresários da cidade. 

 

Este edifício ainda está de pé na Maha Bandula Road (ex 475 Dalhousie Street), a oeste do Pagode Sula (ao fundo), e alberga hoje os Correios e Telecomunicações de Myanmar. O pórtico do edifício visível na foto desapareceu, entretanto.

 

"YOU CAN RELY ON De SOUZA FOR THE REAL MEDICINE"

 

"This postcard from 1961 is of the once-prosperous De Souza Pharmacy building. This building is still standing in Mahabandoola Road (old address was 475 Dalhousie Street), just west of Sule Pagoda. It is now occupied by the Accounts Division of Myanmar Posts and Telecommunications. The postcard was printed before 1964, as the Maung Ko & Bros Watch showroom was still there then. On the opposite side would be the A Swe Daw watch showroom. The signs on the De Souza building read, “You can rely on De Souza for the genuine medicine.”

 

Rangoon was once home to a community of Goans (from then-Portuguese Goa). De Souza Pharmacy was one of the biggest Goan businesses in the city. Unfortunately, the portico on the building was demolished. There was a dental clinic run by Mr de Souza in the building where my parents use to take me for my dental check-ups or treatment up till 1963, after which Mr de Souza had to close his clinic and leave the country. Back then, Dr/Mr de Souza’s dental clinic was the best in Yangon.

 

In the Rangoon Times (1912) this building is listed as ‘E.M, de Souza & Co. / 271 Dalhousie Street & Maung Tawley Street.’ Dalhousie Street is now Mahabandoola Road, and Maung Tawley Street is BoSanPet Street."

 

Harry Hpone Thant / Bob Percival

GOESES

 

633 «IMPROVÁVEL», de ANTÓNIO ROCHA PINTO

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“IMPROVÁVEL"

 

É o título do primeiro romance de António Rocha Pinto, de 60 anos, engenheiro civil. Publicado pelas edições Toth, o romance baseia-se na história da família do autor. 

 

Como o autor nos conta, é uma história, tão improvável quanto verdadeira, de um clínico goês, que aderiu ao comunismo, que se bateu pelos “rojos” na Guerra Civil de Espanha e por fim foi médico de Salazar. 

 

Improváveis também, para mais nessa época, os casamentos de amor de dois irmãos goeses, um com uma holandesa e outro com uma beirã, ao arrepio da tradição indiana de casamentos combinados entre as mães dos noivos. Tão improvável como um homem e uma mulher, em meados do século XX, aguardarem 13 anos à distância de dois continentes, a oportunidade de casarem, adianta o autor. 

 

“Improvável” conta a história da confluência de mundos separados por milhares de quilómetros, e do cruzamento de culturas que uniu Cláudio a Anna, e César a Julieta.

 

ANTÓNIO ROCHA PINTO

António Rocha Pinto nasceu em Lisboa, em 1960, mas tem as suas raízes familiares maternas e paternas, respetivamente, na Covilhã e em Goa. 

 

Passou a sua juventude em Santarém onde ainda vive. Engenheiro civil formado no ISEL, com pós-graduações em Urbanismo e em Gestão, exerce a profissão desde 1982, em conjugação com atividades e participação cívica e sociocultural e com responsabilidades em instituições do Terceiro Sector. 

 

Exerce funções dirigentes na função pública, foi vice-provedor da Santa Casa da Misericórdia de Almeirim e presidiu ao Clube de Santarém. 

 

Dos pais lhe terá vindo a paixão pelas leituras. Iniciou-se na escrita com a publicação digital de contos – nas redes sociais e no blogue https://quemcontadoiscontos.blogs.sapo.pt/.

 

 

632 JOSÉ ALBANO DE SOUZA (1878) e JOSÉ LEÃO DE SOUZA (1919)

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Pai e filho foram a seu tempo, dois de entre os vários Goeses que ocuparam a presidência da Câmara Municipal de Bombaim, a maior cidade indiana.

O Dr. José Albano de Souza foi Mayor de Bombaim entre 1946 e 1946.

Foi também membro da Assembleia Constituinte enquanto representante daquela megalópole durante a elaboração da Constituição da União Indiana, além de seu deputado no primeiro parlamento eleito da nação recém independente.

José Albano de Souza foi ainda Membro e Chairman da Comissão de Saúde Pública por três períodos.

Era natural de Calangute, Goa, Índia Portuguesa.

O Dr.José Leão de Souza, nasceu em Bombaim, e foi Prefeito daquela cidade, entre 1967 e 1968.

Ao contrário do seu pai que tinha sido designado para o cargo, Leão de Souza foi eleito através de uma eleição aberta.

Leão de Souza começou a sua vida autárquica em 1952, e em 1961 trabalhou para o Comité para a Educação, onde iniciou o projeto de Leite Gratuito para as Escolas Primárias.

Enquanto Mayor, de Souza irmanou Bombaim com outras cidades tais como Estugarda, Dresden, Yokohama, , Londres, Roma, Leningrado e Los Angeles.

Em 1975 tornou-se o primeiro Goês a ser designado ministro do Estado de Maharashtra e em 1980 representou aquele estado na Câmara Alta da União Indiana até 1986.

Recebeu o prémio Dr.B.C.Roy pelo seu serviço público.

O Dr. José Leão foi também um afincado desportista, e enquanto católico, desempenhou serviços relevantes a comunidade católica de Bombaim.

Faleceu em Goa aos 87 anos de idade.

631 MANUEL DE SOUZA e a Tanzanita

FB_IMG_1640513177682.jpgMais um caso exemplificativo do pioneirismo Goês. 

Os nossos agradecimentos a Sandrain Breytenbach pela divulgação. 

 

631 MANUEL DE SOUZA e a Tanzanita.

 

Manuel de Souza foi um alfaiate goês que viajou pelo mundo em busca de ouro e pedras preciosas. 

Carinhosamente conhecido como ‘Manuel Louco’, consertou roupas para atravessar África, geralmente a pé e desarmado, em busca de ouro e diamantes nos lugares mais remotos.

Manuel nasceu em Goa, Índia Portuguesa em 1913 e mudou-se para o Tanganica em 1933, tendo-se qualificado como Mestre Alfaiate. 

Em 1939, em Lupa Goldfields, oeste de Tanganica, de Souza começou a prospecção, mas após a Segunda Guerra Mundial deixou de ser lucrativo. 

Mudou-se para Dar er Salaam, na costa leste da Tanzânia, e voltou a se dedicar à alfaiataria, mas no seu interesse pela prospecção, percebeu que era improvável encontrasse algo perto da costa. Logo partiu para os campos de diamantes Shinyanga, mas devido ao monopólio da Williamson Diamond Mines, não conseguiu obter uma licença. 

Mudou-se novamente, desta vez para a área ao redor do Lago Vitória, combinando alfaiataria e prospecção para sobreviver.

No verão de 1967, Manuel estava morando em Arusha, no norte da Tanzânia, e selecionou uma área para explorar durante um fim de semana. Contratou um motorista e partiu. No entanto, as estradas estavam tão más, que o seu motorista se recusou a continuar para além da aldeia de Mtakuja. Manuel, o seu equipamento e os quatro homens locais que contratou ficaram apeados. Em vez de seguir em frente Manuel seguiu seus instintos, e tendo um bom pressentimento sobre a área onde estava, decidiu ficar e explorar. 

A DESCOBERTA

Por volta do meio-dia de 7 de julho de 1967, Manuel de Souza notou algo brilhando na superfície do solo. A cerca de quatro milhas de onde seu motorista havia parado, fez uma descoberta relevante.

Levando para casa, percebeu que a gema era muito mole para ser uma safira, e decidiu que a coisa mais próxima no seu livro de referência de gemas era Olivina. Registou o pedido de exploração junto do governo da Tanzânia em 25 de julho de 1967 para extrair Olivina, (que foi posteriormente alterada a designação para Zoisite em 17 de abril de 1968).

No início, havia muita confusão em torno do que poderia ser a jóia. Alguns disseram que podia ser Dumortierite. Outros pensaram que poderia ser Cordierite. Os primeiros garimpeiros falantes de suaíli que correram para a área nos primeiros dias chamaram-na de ‘Skaiblu’ ("Céu Azul").

Logo após registar sua primeira reclamação de descoberta, Manuel voltou com uma pequena equipe e começou uma operação em pequena escala, levando consigo o famoso geólogo Dr. John Saul.

DR JOHN SAUL

O Dr. John Saul foi o primeiro geólogo a chegar ao local após a descoberta, além de ser membro fundador da Associação Internacional de Gemas Coloridas e proprietário da famosa mina John Saul Ruby no Quénia. Muito do que sabemos agora sobre a descoberta de Tanzanite se deve à diligência de John Saul.

Na época da descoberta, John estava no Quénia, minerando para a Beryl. Ele conheceu Manuel numa visita à Tanzânia e viu amostras da surpreendente gema azul, (rotulada como ‘Dumortierita’ na época). 

John Saul eliminou rapidamente Dumortierite e Cordierite como possibilidades, mas sabia que precisava de ajuda para identificar a nova gema. Então, John pediu ajuda ao seu pai, Hyman Saul.

HYMAN SAULN

essa época, Hyman Saul era vice-presidente da loja americana de luxo Saks Fifth Avenue. Ele foi visitar seu filho John em Nairóbi no final de 1967 e levou amostras da nova descoberta para Nova York.

Chegando em Nova York, levou as amostras do outro lado da rua para o Gemological Institute of America. Ali descobriram que a gema não era olivina ou dumortierita, mas, na verdade, era uma variedade de zoisita que apresentava elementos de vanádio (daí sua cor). 

Mais ou menos na mesma época, Cornelius Hurlburt, de Harvard, Museu Britânico, Universidade de Heidelberg e Ian McCloud, um geólogo do governo da Tanzânia, todos chegaram à mesma conclusão.

Hyman mandou fazer dois lindos anéis com algumas dessas primeiras amostras e mostrou-os ao chefe do departamento de joias da Saks. 

Infelizmente, a Saks achou que trazer a jóia ao público seria um empreendimento muito grande, então Hyman as levou ao seu amigo Walter Hoving, presidente da Tiffany & Co.

O principal comprador de gemas de Hoving e Tiffany, Henry Platt (bisneto de Louis Tiffany) apaixonou-se pela nova gema. Pouco depois, Hyman e John Saul foram jantar com Henry Platt numa das melhores churrascarias italianas de Nova York, e Platt disse a eles que estava tão animado com a aparência da pedra preciosa que faria uma enorme campanha de marketing para ela.

No entanto, Platt não gostou do nome mineral Zoisite, pois disse que soava muito próximo de "suicides" (suicídio) e sentiu que as mulheres não o comprariam. Então lá, durante seus bifes, eles decidiram colectivamente chamar a jóia de Tanzanita.

O DEPOIS

Tragicamente, pouco mais de dois anos após sua descoberta mundialmente famosa, Manuel de Souza morreu aos 56 anos num acidente de carro na estrada para Dar es Salaam. 

Até ele morrer, não parecia ter havido qualquer confusão sobre a história da descoberta de Tanzanite. Pouco tempo depois de sua morte, outras versões da história começaram a surgir. Ally Juyuwatu, Habib Esmail e Jumanne Ngoma foram nomeados como o suposto descobridor num momento ou noutro. 

Já as publicações Bunte (jan 69), Der Spiegel, Jasmine (7/7/69), Time (24/1/69) e Life (9/5/69) atribuíram a descoberta a Manuel de Souza.

Outros revendedores surgiram também com a jóia sob nomes diferentes. Julio Tanjeloff da Argentina tentou chamá-lo de Tanjeloffite e até apareceu na capa do Mineral Digest Volume II em 1971 com este nome. Mas com a influência de marketing da Tiffany's, o nome Tanzanite foi amplamente adotado.

Em meados de 1970, Mererani foi inundado com garimpeiros. Alguns eram locais, mas muitos vieram do exterior. Havia um verdadeiro burburinho no ar, mas em 1971 o governo nacionalizou todas as minas. Por cerca de quinze anos, o governo tentou comandar as operações de mineração, mas logo as coisas se tornaram uma verdadeira confusão.

Em 1986, eles abandonaram seus esforços e milhares e milhares de mineiros artesanais invadiram a área. Quatro anos depois, na tentativa de estabelecer algum tipo de organização para o caos que se desenrolava, o governo criou quatro zonas de mineração diferentes. Estes foram chamados simplesmente de blocos A, B, C e D. Esses nomes ainda são usados ​​hoje.

Hoje, a tanzanita é uma das pedras preciosas mais queridas do mundo nos seus tons de azul e roxo, provando ser uma das favoritas e duradouras. Mas com as minas cada vez mais profundas, esta jóia é cada vez mais difícil de se desenterrar.

630 ANTÓNIO XAVIER DE MORAIS (20/03/1876)

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Nasceu em Santa Cruz, Calapor, Goa.

Fez os estudos primários em português e os secundários em inglês.

Dai seguiu para Puna, onde de formou com distinção no Colégio de Engenharia daquela cidade, adido á Universidade de Bombaim.

Foi rapidamente colocado no Departamento de Obras Públicas do Quadro de Serviço Imperial britânico.

Em 1929 tornou-se Engenheiro-Chefe dos Serviços de Estradas e Edifícios Públicos, e logo foi designado «Joint Secretary of the British India Government» . Foi Vogal do Road Board (Direção Geral das Estradas) e da Comissão de Governo encarregada de estudar a erosão do litoral de Bombaim.

O seu nome está ligado á construção de vários edifícios públicos de Bombaim, inclusive o famoso portal «Gateway to India», ex-libris da cidade e do país.

É também da sua responsabilidade, a consolidação de inúmeras pontes do estado de Gujerate.

António Xavier de Morais foi pai do conhecido jornalista, escritor e biógrafo Frank Robert Morais e avô do poeta e escritor Dom Morais.

 

segundo «Dicionário de Goanidade», de Domingos Soares Rebelo.

629 FILIPE SANTANA ROMANO FERNANDES

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Filipe Santana Romano Fernandes nasceu na cidade da Beira, Moçambique, no dia 12 de novembro de 1938. 

 

Tinha origem familiar em Margão e em Benaulim, Goa.

 

Chega a Lisboa em 1974, onde exerce a sua profissão como aduaneiro no aeroporto de Lisboa, mais tarde transferido para Castelo de Vide no ano de 1975, integrando o Quadro da Direção Geral das Alfândegas, continuando a sua profissão na Alfândega de Marvão, tendo realizado comissões de serviço na Alfândega da Beirã. 

 

Reforma- se na Alfândega de Elvas, em 1990, destacando-se o seu mérito e a sua exemplar conduta profissional ao longo da sua carreira.

 

Nos últimos anos, vive entre Lisboa e Castelo de Vide, onde decide passar o resto da sua vida. 

 

Filipe Fernandes era membro da Casa de Goa, e da ARCIP, Associação Recreativa Indo-Portuguesa.

 

Foi um grande divulgador da cultura Goesa no Alentejo.

 

Faleceu recentemente.

628 MARTIM AFONSO PACHECO GRACIAS (27/03/1934)

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Na linha dos grandes autarcas portugueses de origem goesa, o arquiteto Martim Gracias ombreia com outros vultos do municipalismo luso-goês como António Costa (Lisboa), Venâncio Rodrigues (Coimbra), Bernardo da Costa (Almada) e Abílio Fernandes (Évora). 

 

Aquando do seu falecimento o Município de Portimão decretou três dias de luto municipal.

 

"Nascido em Lagos, a 27 de Março de 1934, Martim Gracias foi residir para Portimão em 1962, onde exerceu, desde essa data, as funções de professor do ensino secundário no então Liceu Nacional de Portimão, atual Escola Secundária Poeta Antonio Aleixo, da qual, em 1975, foi eleito presidente do Conselho Diretivo.

 

Eleito em 1976, nas primeiras eleições livres do Poder Local, como presidente da Câmara Municipal de Portimão, nas listas do PS, permaneceu neste cargo por sucessivas reeleições, até Dezembro de 1993.

 

Foi fundador da Associação de Municípios Portugueses e da Associação de Municípios do Algarve, onde desempenhou os cargos de presidente da Assembleia Geral e do Conselho de Administração.

 

Desempenhou ainda os cargos de presidente da Assembleia Municipal de Portimão, entre 1994 e 2001, presidente da Assembleia Distrital de Faro e deputado do Partido Socialista à Assembleia da Republica pelo Algarve na VII Legislatura (1995 a 1999).

 

Martim Gracias foi eleito pela primeira vez em 1976, escassos dois anos após o 25 de Abril, e deparou-se com um concelho onde faltava tudo: habitação social, escolas, estradas, saneamento básico, abastecimento de água e outras infraestruturas básicas.

 

O trabalho da Câmara de Portimão nos primeiros anos foi dedicado a suprir essas carências.

 

Martim Gracias, que é apontado como um dos mais influentes autarcas da sua geração, esteve à frente dos destinos de Portimão durante duas décadas e deixou também a sua marca no grande crescimento – tantas vezes desordenado – da construção no concelho, não só na cidade, como na principal estância balnear, a Praia da Rocha.

 

Mas deixou também as vias que ainda hoje são estruturantes no concelho, como as avenidas V3 e V6, a piscina municipal, o novo mercado municipal (entretanto demolido para dar lugar ao atual), ou «a maior rede de pré-escolar do Algarve», como recorda Isabel Guerreiro, antiga presidente da Junta de Freguesia de Portimão e ex vereadora da Câmara local.

 

José Gameiro, diretor científico do Museu de Portimão, recorda, por seu lado, que «foi o presidente Martim Gracias que, quando lhe apresentei a ideia de criar um museu me disse: vai para a frente com isso, cria uma comissão». E acabou por ser dessa Comissão Instaladora que, duas décadas mais tarde, surgiria o atual e muito premiado Museu de Portimão."

627 SUSIE COELHO (05/12/1953)

 

Praticamente desconhecida em Portugal e na Europa, Susie Coelho é uma celebridade no mainstream audio visual e da moda nos EUA.

Origem

Susie Coelho nasceu em Cuckfield, Sussex, Inglaterra, em 7 de dezembro de 1953, filha de George e Rani Coelho. 

 

Os seus pais eram de origem Norteira (East-Indian na terminologia inglesa), ou seja, descendentes da antiga comunidade Indo-Portuguesa da cidade de Baçaim (e territórios adjacentes), naquilo que hoje constitui a península da Grande Bombaim. 

Susie cresceu em Bethesda, Maryland, Estados Unidos da América.

 

Início de Carreira

Frequentou a American University em Washington DC, e trabalhou como modelo para a Ford Models, e também como atriz e como repórter de entretenimento. 

 

Em 1982, desempenhou o papel de uma professora de arte no filme «Breakin '2: Electric Boogaloo». 

 

Em 1983, como jornalista, viajou para a Índia para entrevistar Phoolan Devi, conhecida como “A Rainha Bandida” da Índia Central, enquanto esta era uma fugitiva da justiça indiana.

 

Foi cofundadora do restaurante Bono's em Hollywood juntamente com o seu marido Sonny Bono, além da boutique de moda para o jet set 'A Star is Worn'.

 

Carreira Posterior

Em 1997, Susie Coelho criou a «Susie Coelho Enterprises, Inc.» tendo colaborado para os programas «The View» e «Today Show». 

 

Foi apresentadora da série de televisão «HGTV Surprise Gardener» e «Outer Spaces». 

 

É também autora de quatro livros de lifestyle, Everyday Styling (Simon & Schuster 2002), Styling for Entertaining (Simon & Schuster 2004), Secrets of a Style Diva: A Get-Inspired Guide to Your Creative Side (Thomas Nelson 2006), e Style Your Dream Wedding (Thomas Nelson 2008). 

 

Foi premiada com o Women in Film & Video-DC Women of Vision Awards em 2007

 

Em 2019 Coelho fundou a House of Sussex, uma marca de acessórios de moda com foco em colaborações com artistas, criando mochilas usando designs de ex-artistas de rua e tatuadores, e também joias. Além de estarem à venda, as suas peças foram exibidas em museus.

 

Susie também projetou móveis e acessórios para o varejo: Mervyn's com “Susie Coelho Style”, Grandin Road através de uma Signature Collection, e QVC com “Susie Coelho Home”.

 

Vida Pessoal

Coelho foi casado com Sonny Bono de 1981 a 1984, tendo tido um relacionamento com ele desde meados da década de 1970. 

 

Foi então casada com Robert Rounds, com quem divide dois filhos. 

 

É casada com Michael A. Peel desde 2017.

 

Na foto: Sonny Bono, Susie Coelho, Farrah Fawcett e Lee Majors.

626 FORTUNATO FRANCO (1937)

 

 

Franco nasceu em Colvale em Goa, Índia Portuguesa, mudando-se com a sua família para Bombaim aos seis anos de idade.

 

Carreira de clube

Centro-campista, Franco jogou futebol de clubes com Western Railways, Tata, Maharashtra e Salgaocar F.C.

 

Foi capitão do Maharashtra por oito temporadas com o qual ganhou o Troféu Santosh de 1964. 

 

Carreira internacional 

Franco fez parte da equipe nacional da Índia que apareceu nas Olimpíadas de 1960, embora não tenha jogado. 

 

Ganhou o ouro com a Índia nos Jogos Asiáticos de 1962, sediados em Jacarta, Indonésia, através de um golo seu a Coreia do Sul. Estavam presentes, cem mil espectadores.

 

Na Asian Cup de 1964, chegou a final com a seleção indiana, a qual perdeu por 2-0 com a anfitriã Israel.

 

Também pela Índia jogou a Merdeka Cup em 1964 (prata) e 1965 (bronze), um torneio comemorativo da independência da Malásia.

 

No total, somou 26 partidas pela seleção nacional indiana antes de se aposentar após lesão grave no joelho em 1965. Contava menos de 30 anos.

 

Fortunato Franco representou a melhor época do futebol indiano internacional.

 

Vida e morte 

Depois de se aposentar do futebol, em 1966 trabalhou para o Grupo Tata como gerente sênior de relações públicas, antes de se aposentar em 1999 e voltar para Goa. 

 

Morreu em 10 de maio de 2021, aos 84 anos.

625 AVERTINO BARRETO

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Médico moçambicano, nasceu na cidade da Beira onde foi estudante no emblemático Liceu Pêro de Anaia.

 

Decorrente da sua especialização, tem sido a principal figura em Moçambique, no combate às muitas doenças epidemiológicas que assolam o país.

 

Foi Diretor Nacional Adjunto daquele país africano, e também responsável de epidemiologia e doenças endémicas no respectivo Ministério da Saúde.

 

Atualmente o cientista é membro da Comissão Técnica-Científica ao Covid 19.

625 AVERTINO BARRETO

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Médico moçambicano, nasceu na cidade da Beira onde foi estudante no emblemático Liceu Pêro de Anais.

 

Decorrente da sua especialização, tem sido a principal figura em Moçambique, no combate às muitas doenças epidemiológicas que assolam o país.

 

Foi Diretor Nacional Adjunto daquele país africano, e também responsável de epidemiologia e doenças endémicas no respectivo Ministério da Saúde.

 

Atualmente o cientista é membro da Comissão Técnica-Científica ao Covid 19.

624 ABEL REGALADO ÁLVARES COLAÇO (1913)

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Natural de Margão, o Dr. Abel Regalado Álvares Colaço foi o último Procurador da República do Estado da Índia, mantendo-se em funções alguns meses após a invasão da União Indiana.

 

Formou-se em Direito em Portugal e ingressou na magistratura do Ministério Público indo depois para Desembargador da Relação de Goa e para Secretário Geral do Governo do Estado da Índia.

 

Dissemos um seu familiar: "Após a invasão de Goa,na ausência do Gov.General Vassalo e Silva, foi instado pela União Indiana a assinar o acto de rendição, o que recusou. Argumentou então, que à sua função de Secretario Geral do Governo da India, não tinham sido delegadas competências para assinar uma acto dessa importância. Na sequência dessa recusa esteve preso por um curto período de tempo.

 

Demitido pelos indianos, foi reintegrado em Portugal onde faleceu em 1979.

 

#beingIndoPortuguese

622 JOSÉ CRISTÓVÃO PATROCÍNIO DE SÃO FRANCISCO XAVIER PINTO (08/11/1851)

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Cristóvão Pinto nasceu em Santa Cruz, Ilhas, Go

 

Foi três vezes nomeado representante da Índia Portuguesa no Parlamento de Lisboa

 

Devido ao seu talento extraordinário para a escrita e o jornalismo, foi também nomeado bibliotecário do prestigiado Instituto Vasco da Gam

 

Cavaleiro da Ordem de Cris

Membro da Academia de Ciências de Lisbo

 

Deputado às Cortes de Portug

 

.Eleito Deputado em 1890 em representação de Margão, prestou juramento a 15 de janeiro de 189

.Reeleito em 1893, prestou juramento em 23 de fevereiro de 189

.Reeleito em 1894 e representou Nova Goa (Goa) até 1906

 

Foi Professor do Escola Superior Colonial

 

Autor de Publicações e Projetos de Lei nas Corte

 

.As Gauncarias de Goa, Nova Goa, 18

.Plano da organização administrativa do ensino público em Portugal, projecto de Lei apresentado ao Parlamento, Lisboa, 189

.Estudos de política portuguesa com uma carta do Exmo. Sr. Conselheiro Thomaz Ribeiro, Lisboa, 189

.O Antigo Imperialismo Português e as Leis Modernas do Governo Colonial, Lisboa, 189

.Les Indigenes de L'Inde Portugaise: Memoire, Lisboa, 190683380s:. .30.alatoa.. a.

621 LYNN MÁRIO TRINDADE MENEZES DE SOUZA

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Lynn Mário Trindade Menezes de Souza é Doutor em Comunicação e Semiótica pela PUC/SP (1987-1992). 

 

Realizou estágio de pós-doutoramento na The University of Western Ontario, UWO, (Canadá, 2004) e na Monash University (2010, Austrália) e livre-docência pela USP (2006). 

 

Atualmente é professor titular da Universidade de São Paulo (Departamento de Línguas Modernas). 

 

Tem experiência na área de Letras, com ênfase em Letras Estrangeiras, atuando principalmente nos seguintes temas: ensino-aprendizagem, linguística aplicada, língua estrangeira, letramento, crítica literária e literatura pós-colonial.

620 EMELINA DA CUNHA (21/05/1873)

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de Filipa Lowndes Vicente 

em O Público 2021.04.04

 

EMELINA DA CUNHA, UMA MÉDICA GOESA PIONEIRA NO MEIO DA PESTE DE BOMBAIM

 

Emmeline da Cunha é considerada a primeira mulher médica goesa. A licenciatura em Bombaim coincidiu com o deflagrar da peste bubónica, em 1896, e foi no porto da grande cidade da Índia colonial britânica que começou a trabalhar. Partiu depois para Florença, Newcastle e Londres para se especializar em Bacteriologia e Medicina Tropical, numa breve, mas intensa, carreira. O seu percurso, cosmopolita e contraditório, permite-nos refletir sobre os cruzamentos entre género, ciência e colonialismo.

 

O Grant Medical College, a primeira universidade de Medicina ocidental criada na Índia colonial britânica foi inaugurado em 1845. Quase 40 anos depois, em 1884, começou a aceitar mulheres, antes de várias universidades europeias o fazerem (Edimburgo, por exemplo, em 1889). A primeira a licenciar-se, em 1892, foi Freny Cama, parsi, comunidade próspera e progressista de Bombaim. Quatro anos mais tarde, são já seis as mulheres a concluir Medicina: outra parsi, Manak Turkhad; quatro britânicas e Emmeline da Cunha (1873-1972), mulher indiana [??] de nacionalidade portuguesa por ter nascido em Pangim, criada em Bombaim por pais goeses católicos.

 

Durante o curso, Emmeline ganhou vários prémios universitários — Sir James Fergusson Scholarship (1890), Lady Reay Medal, Bai Hirabai Petit Medal, Scholarship of Medical Women in India Fund e, em concorrência com candidatos de ambos os sexos, o Balkrishna Sudamji Prize em Obstetrícia e Ginecologia (1893). O seu nome aparece enunciado em vários lugares como a primeira médica goesa e é provável que o tenha sido, embora as afirmações de pioneirismo corram sempre o risco de serem incertas ou mesmo incorretas.

 

No mesmo ano em que Emmeline e as colegas se licenciam, 1896, a doença que assolava uma favela da grande cidade indiana foi identificada como sendo peste bubónica pelo médico, também de origem goesa, Acácio Gabriel Viegas. Já tinha havido um surto na China e, até à viragem do século, contagiaria muitos lugares do mundo naquela que foi considerada a terceira pandemia de peste da história.

 

O enorme desenvolvimento da navegação ao longo do século XIX — dos navios a vapor à abertura do Canal do Suez em 1869 — e o aumento da circulação global de pessoas e bens fizeram com que as cidades portuárias se tornassem especialmente vulneráveis à circulação da doença. Do Porto ao Rio de Janeiro ou a Bombaim, cidade de entrada na Índia e de passagem entre a Europa e a Ásia. Emmeline da Cunha foi nomeada médica-inspetora do Porto de Bombaim, durante o início da peste, antes de partir para Itália e Inglaterra para prosseguir os seus estudos em Bacteriologia e Medicina Tropical.[...]

 

★Quem era Emmeline da Cunha?

 

Emelina Maria Antonieta da Cunha, ou Emmeline da Cunha, nome já inglesado como tantas vezes acontecia nas passagens entre as duas índias, a portuguesa e a britânica, era fruto do meio mais privilegiado da comunidade goesa de Bombaim, os brâmanes católicos. Eram aqueles que conjugavam o catolicismo com a casta brâmane, ou seja, os privilégios de pertencer à religião dos portugueses, governadores daqueles território indiano desde o século XVI, com os daquela que era considerada a casta mais alta do sistema indiano de desigualdade social e religiosa. Bombaim era a cidade de uma vasta comunidade cristã, quer aquela que lá estava antes de Bombaim ter passado de domínio português para britânico — como dote de casamento entre a portuguesa Catarina de Bragança e o monarca britânico Carlos II —, quer aquela formada pelos goeses, de maioria católica, mas também hindu, de diversas origens sociais e castas que no século XIX foram para Bombaim à procura de oportunidades de estudo e de trabalho.

 

Emmeline era filha de Ana Rita da Gama e do médico e historiador José Gerson da Cunha. Nascera em Pangim em 1873 numa das estadias longas que os pais faziam na terra natal. Prova de que o casal investiu tanto na educação das duas filhas como na do filho, é que Olívia, a outra irmã, estudou Arte em Florença depois de se graduar na Universidade de Bombaim.

 

A análise histórica tem identificado alguns padrões constantes na relação das mulheres com o conhecimento ou a criatividade desde o século XVI — um deles é o modo como o incentivo de pais, homens, era determinante para as filhas prosseguirem estudos superiores ou se dedicarem à escrita, às artes, à ciência, como às diversas profissões que implicavam presença no espaço público e remuneração. Parece ser o caso de Emmeline.

 

Numa carta dirigida ao orientalista italiano Angelo de Gubernatis, em 1897, Gerson da Cunha escreve: “[Os meus filhos] estudam todos com aproveitamento e têm-me dado, graças a Deus, muito prazer e satisfação. A minha filha mais velha vai concluir o seu curso de Medicina.” Numa outra carta enviada de Bombaim para Florença muito antes, em 1883, o pai orgulhoso referia como Emmeline, então com 9 anos, tinha feito exames e fora proposta para o “primeiro prémio da sua classe”. Uns meses depois, volta a escrever ao italiano, dizendo-lhe como a filha era também “uma pianista de instinto”, como a mãe.

 

Esta correspondência entre Gerson da Cunha e o indianista De Gubernatis, na secção de manuscritos da Biblioteca Nacional de Florença, foi o ponto de partida para o meu livro Outros Orientalismos: a Índia entre Florença em Bombaim (2009). Foi também neste espólio manuscrito e pessoal de dois homens, disponível numa instituição pública, que, pela primeira vez, encontrei o nome desta mulher. Encontrei a filha a seguir ao pai.

 

Na minha investigação em curso sobre Gerson da Cunha e a produção de conhecimento sobre a Índia, feita por indianos, na segunda metade de Oitocentos, o percurso médico de Emmeline será um capítulo e não uma nota de rodapé, o lugar a que ficaram remetidos tantos nomes femininos. Este caso é exemplificativo. Para conseguir encontrar traços históricos de mulheres é necessário escrutinar arquivos masculinos de um modo criativo e empenhado.

 

★Florença, primeira paragem na Europa

 

Foram três as cidades europeias onde Emmeline prosseguiu os seus estudos. Florença primeiro, depois Newcastle e finalmente Londres. Os arquivos históricos universitários são determinantes para este tipo de pesquisa, mais ainda para os casos de mulheres que, concluídos os estudos, deixaram poucos ou nenhuns registos em documentação pública. Se a ida de indianos para prosseguir estudos em Inglaterra era comum — os itinerários imperiais a ditarem o caminho —, a ida para Florença só se explica devido a uma conjuntura muito específica, indissociável das relações intelectuais e de amizade que o seu pai, Gerson da Cunha, tinha com a cidade italiana — em 1878 passara uma longa temporada em Itália, para apresentar uma conferência no Congresso Internacional de Orientalistas de Florença e para fazer investigação nos arquivos históricos do Vaticano, em Roma.

 

Quando é que Emmeline partiu para a Europa? Em 1896, Gerson da Cunha escreve uma carta à mulher do presidente da Câmara de Florença a dizer que a família passaria por Florença a caminho de Londres. Mas esta também é a data em que Emmeline teria sido nomeada médica inspetora do Porto de Bombaim. O surgimento da peste bubónica teria alterado os planos familiares? O jornal The Times of India, diz que em 1898 Emmeline era ainda “lady plague inspection doctor” e só em 1899 é possível confirmar que as três mulheres da família estão a viver em Florença.

 

A tese final de Emmeline da Cunha, escrita em italiano e intitulada Sulla esistenza di microrganismi patogeni nella bocca e nel naso d'individui sani, encontra-se disponível online, no âmbito de um projeto recente de inventariação de todas as teses de mulheres que estudaram na universidade de Florença desde 1875, data em que as mulheres foram autorizadas a frequentar as universidades italianas, até à Segunda Guerra Mundial, altura em que os seus números se multiplicam.

 

A encabeçar as cartas deste período estão duas moradas: Via dei Banchi, n. 4 e a Pensione Pendini, na Via Strozzi. O pai ficara a trabalhar em Bombaim e só regressa para apresentar uma conferência no Congresso Internacional de Orientalistas de Roma em 1899. As três mulheres da família aparecem inscritas no congresso como participantes ouvintes, como atestam as atas do evento. Não eram as únicas — o periódico I’llustrazione Italiana chama a Angelo de Gubernatis, organizador do congresso e amigo da família Cunha, o “feministe da Vigília” por ter convidado tantas representantes do “sexo gentil”.

 

Após o congresso, elas ficaram em Itália e ele regressa à Índia, com a promessa de muito em breve se reunir com a família em Florença. Mas a morte por peste bubónica aos 56 anos apanha-o ainda em Bombaim, em 1900. Ana Rita, recém-viúva, escreveu numa carta a Gubernatis: “Tivesse o meu marido cumprido a promessa que lhe fez a si e a mim de regressar a Roma seis meses depois, não teria certamente morrido, e estaríamos todos aqui felizes a viver na bela Itália, essa terra divina, rodeados de amigos bons e amáveis como você, meu caro Conde, e a sua excelente família.”

 

★Medicina na metrópole colonial

 

O que é que Emmeline fez entre a conclusão da especialidade em bacteriologia em Florença e a inscrição na Universidade de Newcastle, no Norte de Inglaterra, em 1901? Voltou à Índia ou permaneceu na Europa? Sabe-se que no primeiro trimestre do calendário académico de 1901 estava matriculada no College of Medicine de Newcastle. Um ano depois faria os exames finais do bachelor of Hygiene e, a 27 de setembro de 1902, obtinha a sua licenciatura. Um dos seus trabalhos escritos mereceu o Prémio Luke Armstrong Scholar em Patologia Comparada.

 

O facto de ter obtido o grau académico apenas num ano era comum para quem, como no seu caso, tinha completado estudos prévios. Este percurso era especialmente frequente em sujeitos colonizados que começavam por estudar nas várias instituições de Medicina ocidental que o império britânico criara nos territórios dominados para depois concluir — e legitimar — a sua aprendizagem na própria metrópole.

 

Estes itinerários coloniais de validação científica também se deram no caso português, em que muitos jovens preferiam ir para Lisboa ou para Coimbra (ou Bombaim) a estudar na Escola Médica de Goa, que, como afirmou Cristiana Bastos, lhes subalternizava os percursos profissionais e os concursos públicos.

 

Tudo indica que, depois de um ano no Norte de Inglaterra, Emmeline tenha ido logo para Londres. “Miss Emmeline Da Cunha” — é assim que aparece no arquivo histórico da London School of Tropical Medicine, onde estudou no primeiro trimestre de 1902. Uma fotografia de grupo marca a sua passagem pela prestigiada instituição de Medicina tropical. Encontrar Emmeline entre os outros estudantes e professores é fácil. É a única mulher e a única pessoa de origem não europeia.

 

Duas outras referências escritas associam-na à universidade, uma privada e uma pública. Uma morada em Manchester, provavelmente porque o seu irmão Gilberto aí estudava Medicina, e outra em Londres, surgem no seu registo universitário.

 

A sua passagem por Londres deixa uma marca mais pública — participa num estudo científico e, ao lado de 13 colegas, o seu nome surge a assinar um artigo numa das mais prestigiadas publicações médicas da época, o British Medical Journal. O texto, de 22 de novembro de 1902, descrevia a identificação do parasita protozoário — tripanossoma — que causava a doença do sono no ser humano. Foi polémico e deu azo a vários intercâmbios de artigos nas publicações seguintes. A denominada “doença do sono”, que afetava (e continua a afetar) de forma mortífera milhares de africanos, era então objeto de investigação científica em vários lugares do mundo, também em Portugal.

 

Em Londres como em Lisboa, a palavra “tropical” era indissociável das ciências coloniais que se desenvolviam a par e passo com os interesses de domínio europeu em África como na Ásia. David Arnold é um dos historiadores que se dedicam ao cruzamento entre medicina e império na Índia.

 

★Bombaim como um laboratório científico

 

Os serviços de Emmelinne como médica inspetora no Porto de Bombaim “mereceram altos louvores no relatório do chefe do serviço sanitário do porto em 1897, e especiais agradecimentos do governo da cidade em 1897 e 1898, e do presidente da Plague Committee, em 1897”, afirma um livro sobre a família Cunha.

 

A doença era consequência da bactéria que tinha sido identificada dois anos antes, em 1894, pelo médico bacteriologista do Instituto Pasteur Alexandre Yersin. Foi em Hong Kong que Yersin deu nome à bactéria transmitida através de pulgas, que — soube-se então — tinha estado na origem de várias epidemias mortíferas ao longo da história. A diferença agora, em finais de Oitocentos, era que a investigação médica em países distintos tinha já condições para ambicionar uma vacina.

 

Foram diversas as comissões de cientistas que de Florença, como da Alemanha, Rússia e Egito viajaram para Bombaim para estudar a peste in loco, numa prova de como os circuitos transnacionais da medicina nem sempre coincidiam com os circuitos das relações coloniais. Indissociáveis dos desafios estritamente médicos do Bombay Plague Committee eram os sociais e económicos. As medidas sanitárias impostas pelo Governo britânico levaram a várias formas de revolta por parte das populações nativas. Levantamentos fotográficos feitos em 1896-1897, sobretudo do capitão britânico C. Moss e do indiano Shivshanker Narayen testemunham quer o trabalho de visitas à população pelos responsáveis de saúde pública, quer as fomes que resultaram da praga, naquela que é considerada a primeira crise biopolítica.

 

A comissão florentina, liderada por Alessandro Lustig, director do Laboratório de Patologia Geral do Instituto de Estudos Superiores de Florença, chega mesmo a instalar um laboratório em Bombaim, no verão de 1897. Objetivo: poder “aplicar na prática as [suas] observações de laboratório” vacinando a população com o soro antibubónico concebido em Florença.

 

Pouco depois, seriam publicados os artigos sobre os ensaios clínicos efetuados entre a população indiana, com resultados menos positivos do que se desejaria. Como afirmou Gyan Prakash, as “colónias eram laboratórios de modernidade demasiado extensos e com pouco investimento”. Estaria a ida de Emmeline para estudar Bacteriologia em Florença, em 1899, em detrimento de Inglaterra, lugar mais óbvio para quem estudava na Índia britânica, relacionada também com os contactos profissionais feitos em Bombaim no contexto do combate à peste bubónica?

 

★Entre vida familiar e a carreira

 

São inúmeros os casos de mulheres nos séculos XIX e XX em que casamento e maternidade significam o fim do exercício da profissão ou dos estudos. Foi também o caso de Emmeline da Cunha. A sua biografia foi cortada ao meio — antes do casamento e depois do casamento, a maior parte da sua longa vida (morreu em 1972, na véspera de fazer 100 anos).

 

A primeira parte da biografia corresponde ao usufruto de todas as possibilidades de formação científica a que era possível aceder e uma transgressão das expectativas em relação à maior parte das mulheres suas contemporâneas. Mesmo tendo em conta que alguns contextos geográficos distintos significam uma maior abertura a percursos de conhecimento e criatividade femininos — maior em Bombaim do que em Pangim, maior em Londres do que em Lisboa.

 

A segunda parte da biografia implica o desaparecimento das fontes escritas. Isto, porque os afetos e as experiências de vida privada tendem a não deixar documentos escritos e também por isso fazer a história das mulheres obriga a abordagens mais criativas e esforçadas dos arquivos. O casamento, em Londres, em 1904, aos 31 anos, com um médico goês de formação britânica, foi a fronteira entre as duas partes da sua biografia. De um capítulo de livro a uma nota de rodapé. A sua educação tinha sido tão ou mais completa e cosmopolita do que a do marido, Francisco Xavier Santana da Costa, mas o regresso à Índia logo em 1904 determinou um caminho distinto para um e para outro — o género a marcar os percursos profissionais.

 

Começam por se instalar em Goa, mais precisamente em Margão, onde ele exerce como médico e diretor de um hospício. De Emmeline já não há notícias. Em 1908 partem para Bangalore, cidade da Índia britânica onde Santana da Costa se tornou médico e director do Hospital de Santa Marta. Tiveram seis filhos, três raparigas e três rapazes. De médica-cientista a mulher de médico e mãe. O modo como as relações pessoais se entrelaçam com os percursos profissionais é muito mais determinante para as mulheres do que para os homens. As dimensões subjetivas e invisíveis — das negociações familiares, dos contextos domésticos e afetivos, dos pais e maridos — afetaram as escolhas públicas e profissionais femininas. Vimos como o pai de Emmeline foi decisivo para a sua breve carreira académica. Terá o marido um papel igualmente preponderante na sua decisão de não ter prosseguido um itinerário na medicina?

 

★Bombaim Goesa: entre dois impérios

 

E o espaço geográfico? Viver em Goa ou em Bombaim, cidade grande e cosmopolita, significaria possibilidades diferentes para as mulheres goesas de Oitocentos? Seria a Índia colonial britânica uma oportunidade adicional para a emancipação intelectual das mulheres para lá da esfera privada? Penso que sim e assim o tentei demonstrar num artigo sobre as mulheres goesas que publicaram durante este período. A sofisticada cultura de imprensa que se vivia na Goa do século XIX — estudada no livro de Rochelle Pinto Between Empires, Print and Politics in Goa e tema do projeto Pensando Goa, da Universidade de São Paulo, do qual faço parte — era sobretudo uma cultura masculina, em que os saberes das mulheres se manifestavam dentro de casa e os dos homens nas muitas publicações impressas em tipografias de Pangim, Margão ou Bastorá.

 

Emmeline personifica as contradições vividas por tantas outras mulheres durante este período histórico, tanto na Índia como na Europa — usufruiu de todas as possibilidades académicas que na transição do século se começavam a abrir ao sexo feminino e o seu talento e inteligência ficaram documentados em registos escritos. Mas o prenúncio prometedor sucumbiu à força da norma.

 

A Índia britânica tinha ainda outra vantagem para os goeses e esta afetava ambos os géneros — a possibilidade de tornarem mais ambíguo o seu estatuto de “colonizados”, categoria que lhes era inevitavelmente adscrita, fosse na Índia portuguesa, fosse em Portugal metrópole colonial. Na Índia britânica, mas sobretudo nessa cidade cosmopolita que era a Bombaim de finais do século XIX, a identidade híbrida dos goeses continha algo de emancipatório. Eram indianos de nacionalidade portuguesa e por isso não estavam sujeitos ao governo britânico como estavam os indianos da Índia britânica.

 

A relação de goeses com a medicina vem também invalidar oposições fáceis entre medicina ocidental europeia, por um lado, e medicina indiana aiurvédica, por outro. No contexto do império português, desde o século XVI que a medicina dita “ocidental” era parte intrínseca da cultura goesa, sobretudo daqueles convertidos à religião e à língua. Quando o pai de Emmeline escreve um ensaio histórico sobre a vida e o trabalho do judeu português Garcia de Orta em Bombaim, afirmou também como a genealogia da Medicina e Botânica quinhentistas era indissociável da história da Índia (e da sua própria formação enquanto goês).

 

Mas as potenciais vantagens de esta comunidade goesa viver em Bombaim — na sua identidade colonial, em geral, como na maior abertura para o género feminino — tiveram um preço. Nos interstícios e fronteiras entre contextos imperiais, os goeses de Bombaim tenderam a ficar de fora das lentes de observação das historiografias, quer britânica, quer portuguesa, mais centradas nos eixos entre as metrópoles e as colónias. Pelo contrário, é nestes lugares híbridos, de múltiplas geografias, línguas e culturas, que se encontram personagens como Emmeline da Cunha, uma mulher cosmopolita, tanto nos seus itinerários transnacionais na Medicina, como na própria identidade – mas também contraditória, sobretudo no modo como renunciou a uma carreira científica promissora para desaparecer dos traços da história.

TENDA INDO-PORTUGUESA (Museu Militar de Toledo)

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TENDA INDO-PORTUGUESA (Museu Militar de Toledo)

Foi com enorme satisfação e surpresa que soubemos da existência desta peça indo portuguesa do séc XVI, e do mandante da obra, Martim Afonso de Souza, descendente de Martim Afonso "Chichorro" (1250), filho bastardo de Afonso III e de Madragana Ben Aloandro, filha do último alcaide mouro de Faro recém conquistada. Foi oferecida ao imperador Carlos V.

ALFREDO OSÓRIO DOS ANJOS

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ALFREDO OSÓRIO DOS ANJOS, natural de Salcete em 1926, formou-se em Farmácia na Escola Médica de Goa e em Letras. Mas foi com a especialização em Matemáticas Modernas que deixou a sua marca em Portugal. Ensinou nos liceus Pedro Nunes, Gil Vicente e de Lourenço Marques. A sua bibliografia tem feito parte da vida dos estudantes portugueses nas últimas décadas. Faleceu em Lisboa onde residia.

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